segunda-feira, 15 de abril de 2013

Silêncio


A menina fitava o céu, o vento frio que subia o morro brincava com seus cabelos e dançava com o vestido branco com detalhes, jogando-o de um lado pro outro. Inspirou fundo o ar outonal gélido e o soltou, satisfeita, como se aquilo tivesse posto em ordem as coisas que pensava. Olhou para a cidade, tinha uma bela vista de lá de cima, podia ver a tudo e a todos, assim como Ele; esse pensamento pareceu desagradá-la um pouco. As pessoas trabalhando pareciam pequenas formiguinhas operárias, comparado ao tamanho real, elas pecavam em tudo: Seu tamanho era tão diminuto, que pisavam em cima sem querer! Seu esforço à cidade, ao mundo, era tão pequeno que não era visto por ninguém! E suas súplicas e gritos de sofrimento eram tão ínfimos, que nada se ouvia! Ficou séria e novamente fitou o céu cinzento, aquela onda de pensamentos havia embaralhado seu raciocínio. Emburrado, bufou, nada mais entendia, cansou-se do frio e desceu até sua casa.
                Chegou a sua casa, perfeita aos olhos da garota; de tijolos amarelos, todos encaixados simetricamente; janelas brancas em todos os cantos da casa, todas acortinadas; telha de um vermelho vivo que brilhava sobre o sol; uma porta de madeira forte que esbanjava comodidade; mesmo sendo igual a todas as outras da cidade, padronizada, aquela era única. Sua avó se encontrava no jardim, cuidando de suas rosas perfumadas; foi ai que a menina teve um estalo, podia perguntar para a avó, ela era idosa, experiente, sabia das coisas, ela esclareceria a dúvida. A avó quando viu a menina, abriu um sorriso, empurrando as rugas de sua face.
                - Vó, pode me responder uma coisa? – Indagou a menina com um jeito pidão.
                - Qualquer coisa, minha querida – Abriu outro largo sorriso.
                - Quem é Ele? – Perguntou a menina pensando na conversa do dia anterior. O sorriso sumiu do rosto da avó.
                - C-como assim, porque você está perguntando isso? – Gagueja um pouco a avó, suando frio.
                - Porque eu quero saber, ué – Botou as mãos na cintura um pouco indignada, achava o motivo dela óbvio. – Porque a gente tem que obedecer ele?
                - Querida, nós não obedecemos ele... Simplesmente escutamos o que ele fala, ele sabe o que fala, ele está sempre certo – A avó explicava acariciando a cabeça da menina e olhando de um lado pro outro, o medo estampado em seus olhos.
                - Obedecem sim, parece eu quando estou levando bronca do papai e da mamãe, fico quieta e obedeço – Dando ênfase que obedecia, sentia orgulho de ser uma boa menina. Mas a avó simplesmente colocou o seu dedo ossudo em seus pequenos lábios, interrompendo a torrente de perguntas dela.
                - O que você acha de ao invés de eu responder essas perguntas, irmos comer aquele bolo de laranja que acabei de fazer? – Pediu com a voz trêmula, mas a menina não percebeu, apenas sorriu e assentiu, saltitando em direção à casa; não percebera também os homens de preto que observavam sua casa, não pensou mais em outras questões, só queria saber se iria ter cobertura no bolo.

                Lambendo os dedos cheios do chocolate da cobertura, e em seguida esfregando no pano da mesa, a menina se encontrava satisfeita. A mãe, que lavava a louça do lanche, sorria e olhava para ela; ainda não sabia do jardim e parecia ser o que a avó, que batucava os dedos na mesa, queria dizer, mas não achava uma chance. Era tarde, a menina que antes estava absorta em outros pensamentos, lembrou-se da questão que a avó evitava e decidiu fazer para mãe.
                - Mamãe, quem é Ele? – A avó prendeu a respiração e a mãe olhou para trás como se tivesse tomado um susto.
                - O quê?
                - Quem é? E porque todo mundo fala d’Ele? – A água que caía da torneira aberta era a única coisa a quebrar o silêncio da cozinha; como a mãe nada falou, a menina continuou: – Porque Ele tem um programa que a gente tem que assistir? – Neste instante, o pires que a mãe segurava partiu-se, de tanta força que ela segurava. Sangue brotava da mão dela, a avó foi ajudá-la; a menina olhava tudo assustada.
                - Mamãe, tá tudo bem? – Perguntou chorosa.
                - Sai daqui! – Gritou ela entre os dentes enquanto a avó enrolava o corte com um pano e a acalmava. A menina decidiu sair, já que era uma boa filha. Chegando a sala, topou com seu pai, que estava cansado do trabalho, porém, sorridente.
                - Que foi, filhota? – Perguntou ele, abaixando na altura da filha.
                - A mamãe se cortou – Choramingou a menina.
                - Calma, calma, tenho certeza que não foi nada – Falou enquanto olhava pra cozinha. – Agora me diga, porque ela se cortou?
                - Eu perguntei pra ele sobre Ele – Ela viu a expressão do pai mudar e já entendeu – Você também sabe sobre Ele?
                O pai assentiu.
                - Papai, pode me responder quem é Ele? – Ela já estava inquieta, queria saber a resposta, mas tinha medo de estar sendo chata. O pai coçou a cabeça.
                - Sinto muito, filha, não posso. – Respondeu e suspirou tristemente.
                - Porque não? – Sua vontade de chorar aumentava.
                - É complicado – Falou ao se levantar. – Você não entenderia.
                - Claro que entenderia, já tenho 11 anos, sou grande já! – Resmungou ela, fazendo bico e ficando emburrada.
                - Sim, você já está grandinha – Falou com um sorriso no rosto. – Mas não para isso.
                -...
                - Quer perguntar outra coisa?
                - Posso?
                - Claro, filha. Pergunte e eu tentarei responder.
                 - Se todos deviam ver esse programa... Porque a gente não assiste?
                O pai a encarou por um tempo, depois riu, depois fez de querer chorar, fechou a cara e finalmente falou:
                - Porque o bobão do seu pai achou que seria o melhor para você, para todos nós. Bem, parece que eu estava errado – Disse conformado. A mãe surgiu na porta, segurando com força o pano que envolvia seu corte.
                - Precisamos conversar – Falou seriamente, com um tom de raiva na voz. – E você, já pro seu quarto! – Disparou subitamente para a pobre menina, que nada pode fazer a não ser... Obedecer.

                Os gritos de sua mãe eram claramente audíveis de seu quarto, mesmo cobrindo a cabeça com o travesseiro. “Você disse que ela não descobriria”. “É culpa sua!”. “Porque fui dar ouvidos a você?”. “Antes obediente do que...”. A voz estridente gritava várias coisas, parecia que seu pai estava levando a pior. Olhou para a janela para tentar relaxar, então se lembrou do Robertinho. Claro! Como poderia esquecer-se de sua paixonite vizinha? Afinal, fora ele quem a convencera de que Ele era um manipulador malvado. Ontem ele estava bem alterado, pensava a menina enquanto ia até a janela, olhando sempre pros lados, suando, falando coisas sobre controle, cidade e outras coisas birutas. Abriu a janela, novamente a brisa a encontrou, relaxando seu pequeno corpo tenso. Olhou pro lado e viu os Amigos da Vizinhança, lembrou que até os coitados foram vítimas das coisas que Robertinho falara.
                Os Amigos da Vizinhança eram gentis homens vestidos de preto, que observavam tudo e mantinham a paz na região eram educados com todo mundo. Toda vez que a menina saía de casa ou se pendurava na janela, bastava ela cumprimentar eles e era retribuída com elogios e sorrisos; os via como amigos. Como de costume, acenou para eles e esperou resposta, só que anda veio deles; permaneciam sérios, observando tanto sua casa quanto a de Robertinho. Um pouco sentida por ter sido ignorada, relevou o acontecido; devem estar cansados. Gritou o nome de Robertinho algumas vezes e ele não respondeu, como vinha acontecendo nas últimas vezes, então ela pegou um galho preparado ao seu lado e o usou para cutucar a janela vizinha. Uma, duas, três, infinitas vezes a janela fora cutucada e nada; sem sinal do Robertinho. Já estava pra desistir quando a janela foi aberta, mostrou um sorriso, que logo sumiu; não era Robertinho, mas sim a mãe dele. Ela parecia ter envelhecido muitos anos, uma cara abatida e inchada; a menina lembrou-se de seu pai quando não dormia direito.
                A mulher ficou encarando-a, esperando que ela falasse, a menina estava com medo, mas engoliu seco e perguntou:
                - O Robertinho está?
                -... Não. – Parecia um choro.
                - Aaah, ele saiu?
                -...
                - Bem, você pode avisar pra ele que eu quero falar com ele?
                - Acho difícil. – A voz dela era fria e vazia, como se fizesse força só para falar.
                - Aconteceu algo com ele? – Imaginava o Robertinho chorando com o joelho ralado.
                - Sim... Ele foi malcriado – A menina ficou tensa, algo estava estranho. – Ele não foi obediente.
                 A menina estava imersa em medo, aquilo que ela tinha falado, despertou os mais profundos temores. Na hora certa, sua avó abriu a porta e viu a menina na janela, com uma rapidez incrível para a idade, tirou a menina dali e fechou a janela; a menina tremia.
                - Vó... Ela... Ela – Tentava segurar o choro, mas era difícil.
                - Não foi nada, bebê, não foi nada – Falava a avó com uma voz tão mansa quanto a brisa. – Vamos descer para comer? Tenho certeza que um arroz e feijão vai tirar essa cara de choro num instante!
                - Mas vó, o Robertinho, ele...
                - Esquece o Robertinho, ou você quer deixar sua mãe esperando?! – Ameaçou a avó, a menina concordou na hora. – Então vamos que a comida vai esfriar.

                O jantar foi quieto e tenso, ninguém falava nada, e menina concentrada em seus pensamentos e os maiores se entreolhando; algo estava para acontecer. Acabado o jantar, a menina fez o que fazia a algum tempo, subir direto pro seu quarto, mas seu pai a chamou antes.
                - Filha, quer ver um pouco de tevê com a gente? – Disse tentando manter um grande sorriso amarelo, a menina estranhou, eles não viam tevê depois do jantar; não pelo que ela se lembrava, mas o pai insistia. – Venha, vai ser divertido! – Como a boa menina que era, não discordou e desceu.
                Todos alinhados no sofá, a sala toda escura, a única iluminação vinha da tevê, que fazia uma contagem regressiva para o começo do programa. A menina não sabia qual era, mas devia ser algo agradável, talvez aquele desenho que ela queria ver faz um tempo, é, vindo do seu pai devia ser algo agradável. Então o programa começou.

“Ele é o senhor, Ele cuida do povo. Confiem n’Ele que Ele confiará em vocês.”

Depois da mensagem inicial, o programa foi passando, músicas que grudavam na cabeça e animadas, discursos imponentes; a menina não pensava em mais nada, aquilo era maravilhoso.
                Lá do morro dava para ver tudo e a todos; a cidade estava escura, a única iluminação provinha da luz gelada do televisor em todas as casas da região. Nada se ouvia, nem a brisa outonal, tudo estava mergulhado em um silêncio. Um silêncio calmo, vazio, constante e obediente.


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Olá! Outra postagem rápida a pedido de um amigo, um dos que eu mais gosto (e um dos raros completos, é a vida), também para um concurso, agora não me lembro de qual e foi feito em 20/06/11