quarta-feira, 20 de junho de 2012

Para Sempre


Seu pé afundava na neve, dificultando o caminho; resmungava, mas continuava, podia ver a árvore já.
                                         
Diga que me ama. Sim, veja, vamos marcar nosso nome aqui nessa árvore. Ficará aqui para todo o sempre.

Vadia... Por causa dela estou aqui nesse frio. Tal frio que só aumentava à medida que ele subia o morro, parecia de propósito, então sentiu um frio na espinha e olhou para trás, viu uma garotinha singela, apenas de vestido branco; temeu por sua vida e apressou a subida. Estava cansado, mal dormira para chegar até ali, queria estar aquecido, como nas noites que ficavam em frente à fogueira, como quando se abraçavam, como quando parava para relaxar no parque à tarde, como quando faziam amor, como o sangue dela em suas mãos.
Nevava e ventava, algo que dificilmente acontecia ali; e ele corria, não podia dar-se o luxo de ser alcançado pela menininha, que apesar de só caminhar, estava quase em sua cola. Impossível. Incrível. Por que estava sofrendo daquele jeito? Olhou para o céu que escurecera como os olhos castanhos dela.

Vamos, mais rápido! Você acha que me alcança?
Não seja tão afobado... Você sabe que eu sou toda sua...
Este colar combina tanto com você, comprei pensando em nós...
Não! Pare de me fazer cócegas! Não vou dizer! Você vai ficar convencido...

Era por isso que batalhava, para ver se o sangue em sua camisa e mãos saía.

Não fume! Faz mal para sua saúde!
Você comeu todo o macarrão de novo? Esqueceu que eu existo?
Abaixe a tampa da privada! É tão difícil lembrar disso?
Você é ridículo, sabe que eu posso viver sem você... Não, não posso...

Os momentos felizes, as brigas bobas, os momentos que eu gostaria de esquecer, tudo isso me faz te odiar.

Por que você não atende mais as minhas ligações... Sinto que está me ignorando...
Você é nojento! Seu porco desgraçado! Se estiver me traindo, farei o mesmo!
Sim, foi com o seu melhor amigo... É bom, não é? Quando você recebe na mesma moeda?
O colar... Por que você arrebentou o colar!?

Maldita... Esse frio está congelando minhas lágrimas. Estava bem perto da árvore, o frio estava insuportável, sua boca seca, seus olhos pareciam vidro, pele pálida, o vento cortante, a subida íngreme; ouviu a menina sussurrar: Você vai morrer.
Caiu, não resistiu. Deitou naquela neve branca, como a pele dela, como o vestido da menina; ela estava ao seu lado.

- Patético. Não deveria ter vindo aqui. Tenho nojo de você.

Mal prestava atenção, encarava a árvore, viu ela se transformar na sua amada, seus lindos olhos vazios, seu cabelo sedoso e empapado de sangue, seu corpo estonteante com uma, duas, três... Diversas facadas, perdera até a conta; não deviam ter discutido na cozinha. Levantou pateticamente a mão para tentar agarrá-la, suas unhas rachadas e seus dedos débeis balançando no vazio, então ela sumiu, voltando a ser a árvore, o último pedido dela. Sorriu enquanto pensava em suas brincadeiras, nunca conseguiu alcançá-la. Pegou um maço de cigarro do seu bolso, foi difícil abrir com seus dedos insensíveis, mas conseguiu tirar um cigarro e colocá-lo na boca, pegou o isqueiro e inutilmente tentou acender, estava fraco demais para isso, sempre fora fraco; conseguiu acender, mas a chama não viveu muito, o fogo apagou logo que a menina chegou a sua frente.

- Ela te amou.

Ele a encarou bem, lembrava ela quando criança, lembrava ela de agora, lembrava ela quando morreu, lembrava os momentos turbulentos, mas os agradáveis também, parecia sua filha que nunca nasceria, era o começo, era o fim; era aquela que amarrava as pontas soltas. A outra mão segurava com força o colar, aquilo que simbolizava tudo, aquilo que estava rompido. Lembrou-se das brincadeiras, daquele sorvete casual ao entardecer no parque, da confusão na cozinha, no sol iluminando o seu corpo na cama, nas palavras trocadas, no barulho da faca cravando sua carne, sua risada, seu choro, seu último pedido coberto de sangue.

Leve este colar... à nossa árvore. Lá que ele pertence.

Desgraçada... Como eu te amo. Para sempre, não é?

- Pensando nisso agora? Covarde.

Então de leve, tocou a testa dele, ele arquejou seu corpo e gritou, um grito curto e seco, não podia gritar mais, começou pelo pulmão e foi se alastrando. Arqueado e de boca aberta, arranhava seu peito que congelava por dentro, gritando silenciosamente, se debateu por pouco tempo, havia chegado ao cérebro; simplesmente deitou no travesseiro feito de neve e libertou-se.  A menina suspirou, triste, pegou o colar, depositou na árvore e sumiu. A neve cobriu o corpo do rapaz e o sol saiu, iluminando o cenário. A árvore no topo do morro coberto de uma neve lisa, como se o rapaz nem tivesse passado por ali; o sol banhando como um mantando dourado, iluminando as folhas congeladas, dando um aspecto de diamante e o colar pendurado, como uma pequena lágrima prateada. Era realmente bem bonito.

Tá, pare, eu digo, eu digo! Eu... te amo, e sempre te amarei...


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Este conto foi postado numa comunidade em 22/08/2011 e bem, deixei ele do jeito que estava e não sei, gosto bastante dele, mas o tema do concurso era uma imagem que possuía (uma árvore congelada e iluminada pelo sol no topo de um morro, depois vejo se acho) então como eu dependia da imagem, a descrição do cenário pode ter ficado um tanto fraca, e pode haver confusão nos diálogos da mulher, mas de resto, é interpretação! E assim estreia o CVM, comentem, critiquem, apontem erros gramaticais e... VAI CORINTHIANS /não

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