Seu pé afundava na neve, dificultando o caminho;
resmungava, mas continuava, podia ver a árvore já.
“Diga que me ama. Sim, veja, vamos marcar nosso
nome aqui nessa árvore. Ficará aqui para todo o sempre.”
Vadia... Por causa dela estou aqui nesse frio. Tal
frio que só aumentava à medida que ele subia o morro, parecia de propósito,
então sentiu um frio na espinha e olhou para trás, viu uma garotinha singela,
apenas de vestido branco; temeu por sua vida e apressou a subida. Estava
cansado, mal dormira para chegar até ali, queria estar aquecido, como nas
noites que ficavam em frente à fogueira, como quando se abraçavam, como quando
parava para relaxar no parque à tarde, como quando faziam amor, como o sangue
dela em suas mãos.
Nevava e ventava, algo que dificilmente acontecia ali; e ele
corria, não podia dar-se o luxo de ser alcançado pela menininha, que apesar de
só caminhar, estava quase em sua cola. Impossível. Incrível. Por que estava
sofrendo daquele jeito? Olhou para o céu que escurecera como os olhos castanhos dela.
“Vamos, mais rápido! Você acha que me alcança?”
“Não seja tão afobado... Você sabe que eu sou
toda sua...”
“Este colar combina tanto com você, comprei
pensando em nós...”
“Não! Pare de me fazer cócegas! Não vou dizer! Você vai ficar convencido...”
Era por isso que batalhava, para ver se o sangue em
sua camisa e mãos saía.
“Não fume! Faz mal para sua saúde!”
“Você comeu todo o macarrão de novo? Esqueceu que
eu existo?”
“Abaixe a tampa da privada! É tão difícil lembrar
disso?”
“Você é ridículo, sabe que eu posso viver sem
você... Não, não posso...”
Os momentos felizes, as brigas bobas, os momentos
que eu gostaria de esquecer, tudo isso me faz te odiar.
“Por que você não atende mais as minhas
ligações... Sinto que está me ignorando...”
“Você é nojento! Seu porco desgraçado! Se estiver
me traindo, farei o mesmo!”
“Sim, foi com o seu melhor amigo... É bom, não é?
Quando você recebe na mesma moeda?”
“O colar... Por que você arrebentou o
colar!?”
Maldita... Esse frio está congelando minhas
lágrimas. Estava bem perto da árvore, o frio estava insuportável, sua boca
seca, seus olhos pareciam vidro, pele pálida, o vento cortante, a subida
íngreme; ouviu a menina sussurrar: Você vai morrer.
Caiu, não resistiu. Deitou naquela neve branca, como
a pele dela, como o vestido da menina; ela estava ao seu lado.
- Patético. Não deveria ter vindo aqui. Tenho nojo
de você.
Mal prestava atenção, encarava a árvore, viu ela se
transformar na sua amada, seus lindos olhos vazios, seu cabelo sedoso e
empapado de sangue, seu corpo estonteante com uma, duas, três... Diversas
facadas, perdera até a conta; não deviam ter discutido na cozinha. Levantou
pateticamente a mão para tentar agarrá-la, suas unhas rachadas e seus dedos
débeis balançando no vazio, então ela sumiu, voltando a ser a árvore, o último
pedido dela. Sorriu enquanto pensava em suas brincadeiras, nunca conseguiu
alcançá-la. Pegou um maço de cigarro do seu bolso, foi difícil abrir com seus
dedos insensíveis, mas conseguiu tirar um cigarro e colocá-lo na boca, pegou o
isqueiro e inutilmente tentou acender, estava fraco demais para isso, sempre
fora fraco; conseguiu acender, mas a chama não viveu muito, o fogo apagou logo
que a menina chegou a sua frente.
- Ela te amou.
Ele a encarou bem, lembrava ela quando criança,
lembrava ela de agora, lembrava ela quando morreu, lembrava os momentos
turbulentos, mas os agradáveis também, parecia sua filha que nunca nasceria, era
o começo, era o fim; era aquela que amarrava as pontas soltas. A outra mão
segurava com força o colar, aquilo que simbolizava tudo, aquilo que estava
rompido. Lembrou-se das brincadeiras, daquele sorvete casual ao entardecer no
parque, da confusão na cozinha, no sol iluminando o seu corpo na cama, nas
palavras trocadas, no barulho da faca cravando sua carne, sua risada, seu
choro, seu último pedido coberto de sangue.
“Leve este colar... à nossa árvore. Lá que ele pertence.”
Desgraçada... Como eu te amo. Para sempre, não é?
- Pensando nisso agora? Covarde.
Então de leve, tocou a testa dele, ele arquejou seu
corpo e gritou, um grito curto e seco, não podia gritar mais, começou pelo
pulmão e foi se alastrando. Arqueado e de boca aberta, arranhava seu peito que
congelava por dentro, gritando silenciosamente, se debateu por pouco tempo,
havia chegado ao cérebro; simplesmente deitou no travesseiro feito de neve e
libertou-se. A menina suspirou, triste,
pegou o colar, depositou na árvore e sumiu. A neve cobriu o corpo do rapaz e o
sol saiu, iluminando o cenário. A árvore no topo do morro coberto de uma neve lisa, como se o rapaz nem tivesse passado por ali; o sol banhando como um mantando dourado, iluminando as folhas congeladas, dando um aspecto de diamante e o colar pendurado, como uma pequena lágrima prateada. Era realmente bem bonito.
“Tá, pare, eu digo, eu digo! Eu... te amo, e sempre te
amarei...”
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Este conto foi postado numa comunidade em 22/08/2011 e bem, deixei ele do jeito que estava e não sei, gosto bastante dele, mas o tema do concurso era uma imagem que possuía (uma árvore congelada e iluminada pelo sol no topo de um morro, depois vejo se acho) então como eu dependia da imagem, a descrição do cenário pode ter ficado um tanto fraca, e pode haver confusão nos diálogos da mulher, mas de resto, é interpretação! E assim estreia o CVM, comentem, critiquem, apontem erros gramaticais e... VAI CORINTHIANS /não
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Este conto foi postado numa comunidade em 22/08/2011 e bem, deixei ele do jeito que estava e não sei, gosto bastante dele, mas o tema do concurso era uma imagem que possuía (uma árvore congelada e iluminada pelo sol no topo de um morro, depois vejo se acho) então como eu dependia da imagem, a descrição do cenário pode ter ficado um tanto fraca, e pode haver confusão nos diálogos da mulher, mas de resto, é interpretação! E assim estreia o CVM, comentem, critiquem, apontem erros gramaticais e... VAI CORINTHIANS /não
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